Coop de Plataforma
Cooperativismo na Era Digital: semelhanças e diferenças entre cooperativas de plataforma e cooptechs
Como o cooperativismo está criando uma economia digital mais justa por meio da inovação
Mesmo sendo um modelo de negócios centenário, o cooperativismo nunca perdeu o seu caráter moderno e inovador. Desse modo, as cooperativas também marcam presença na economia digital, adotando as novas tecnologias e dinâmicas de mercado sem perder os valores e princípios cooperativistas que promovem tanto a competitividade quanto o impacto econômico e social.
Nesse contexto, as cooperativas de plataforma e as cooptechs (startups cooperativas) representam a capacidade do cooperativismo de se manter na vanguarda tecnológica e das tendências de mercado.
Apesar de semelhanças, no entanto, as cooperativas de plataforma e as cooptechs são diferentes. Entenda, então, o que é cada uma delas e saiba o que elas têm em comum assim como o que diferencia os conceitos!
O que é cooperativismo de plataforma
O conceito de cooperativismo de plataforma foi proposto por Trebor Scholz, professor da The New School, em Nova York, no livro “Platform Cooperativism: Challenging the Corporate Sharing Economy”. A ideia surge como um modelo alternativo de propriedade e governança de bases cooperativistas para construir plataformas digitais mais justas e democráticas.
Desse modo, em vez de plataformas controladas por um pequeno grupo de acionistas, elas seriam de propriedade dos próprios trabalhadores ou usuários, com uma gestão coletiva. O objetivo é criar uma economia digital mais colaborativa e humanizada.
O cooperativismo de plataforma, portanto, surge como uma maneira de integrar as cooperativas a um novo contexto econômico e tecnológico ao mesmo tempo em que promove um ambiente de serviços digitais inovadores mais solidário e equitativo.

Contexto
Com o mundo cada vez mais conectado, a internet ganhou espaço no dia a dia das pessoas. Com isso, serviços intermediados por plataformas online cresceram proporcionando desde filmes e músicas em streaming até delivery de comida e transporte.
Os aplicativos agora são parte central do cotidiano na era da economia do compartilhamento. Esse novo panorama econômico se fortaleceu ao promover serviços fáceis de obter e com ganho de escala, dinâmica e flexibilidade. Contudo, essa nova realidade também tem efeitos econômicos e sociais negativos.
Esse modelo de serviços intermediados por plataformas tem como consequência a precarização do trabalho, uma vez que os trabalhadores não são funcionários das plataformas. Seja um artista em um aplicativo de música ou um entregador em um app de comida, as relações de trabalho se fragilizaram.
O cooperativismo de plataforma emerge, então, como uma resposta a esse cenário de gig economy (ou economia do bico), mantendo o que fez as plataformas se tornarem o coração da economia digital, mas aplicando conceitos do cooperativismo para lidar com os efeitos negativos desse modelo.
Tipos de cooperativas de plataforma
Um estudo do MIT publicado em 2015 estabeleceu quatro categorias para segmentar as cooperativas de plataforma, determinando que o modelo de negócios pode variar de acordo com elementos como: modelo de governança, distribuição de lucros e excedentes, fontes de financiamento e suporte e formato de associação. Os quatro tipos são:
Cooperativas de
trabalhadores:
são plataformas digitais em que os trabalhadores controlam a plataforma e decidem sua gestão e distribuição de excedentes. Desse modo, os trabalhadores ficam com os rendimentos, sem pagar taxas de intermediação, como acontece nas plataformas tradicionais.
Cooperativas de
produtores:
trata-se de modelo de cooperativa em que os próprios criadores de conteúdo e usuários são donos da plataforma digital que utilizam, compartilhando o controle e os ganhos. Pode ser o caso de uma cooperativa de streaming em que músicos e ouvintes são os proprietários.
Plataformas
municipais:
um modelo no qual os próprios municípios desenvolvem, possuem e operam plataformas digitais. Um serviço de hospedagem, por exemplo, pode ser uma cooperativa de plataforma que se enquadra nessa classificação.
Plataformas apoiadas
por sindicatos:
modelo em que os próprios trabalhadores, como taxistas, se unem a sindicatos para criar e operar seus próprios aplicativos de serviços em vez de dependerem de plataformas corporativas. Isso permite que os trabalhadores tenham acesso a proteções como planos de saúde e fundos de pensão, dentre outros.
Os dez princípios do cooperativismo de plataforma
No livro referência sobre o tema, Trebor Scholz também propõe os dez princípios para as plataformas cooperativas. Parte deles diz respeito à atuação das cooperativas em si, mas também há premissas sobre legislação trabalhista e previdenciária, gerando um ambiente jurídico seguro e receptivo ao modelo. São eles:
Propriedade:
defende uma internet centrada nas pessoas onde as plataformas são de propriedade coletiva daqueles que geram seu valor, como os trabalhadores e usuários.
Pagamentos decentes e seguridade de renda:
as plataformas cooperativas devem oferecer remuneração justa e segurança de renda para os trabalhadores, combatendo a exploração econômica.
Transparência e portabilidade de dados:
a transparência deve existir não apenas nas operações e orçamentos da cooperativa, mas principalmente na forma como os dados dos usuários e consumidores são coletados, analisados, utilizados e vendidos a terceiros.
Apreciação e reconhecimento:
deve haver o estabelecimento de um ambiente de trabalho em que os trabalhadores são valorizados, têm canais de comunicação diretos com os operadores da plataforma e o direito a receber explicações sobre decisões que os afetam.
Trabalho codeterminado:
os trabalhadores devem estar envolvidos em todas as fases da plataforma, desde sua programação e design inicial até seu uso contínuo.
Moldura jurídica protetora: :
as cooperativas de plataforma precisam de apoio e de um arcabouço legal que as proteja, pois o sistema jurídico e regulatório atual tende a subsidiar e favorecer as grandes corporações.
Proteções trabalhistas portáveis e benefícios:
aborda a insegurança dos trabalhadores autônomos e temporários, cujos benefícios sociais geralmente estão atrelados a um único empregador tradicional. Assim, propõe que essas proteções se tornem "portáteis", acompanhando o indivíduo em diferentes trabalhos por meio de uma "Conta de Seguridade Individual".
Proteção contra comportamento arbitrário:
visa proteger os trabalhadores de práticas disciplinares e de demissão arbitrárias, comuns em grandes plataformas. Desse modo, a ideia é que os trabalhadores tenham seus sistemas de reputação descentralizados, para que possam levar seu histórico para outras plataformas.
Rejeição de vigilância excessiva do ambiente de trabalho:
se opõe a práticas de monitoramento invasivas que registram a atividade do trabalhador ou as avaliações constantes, considerando-as uma violação da dignidade do trabalhador.
Direito de se desconectar:
defende que o trabalho digital deve ter fronteiras claras, garantindo aos trabalhadores o direito de se desconectar para ter tempo para descanso, lazer, aprendizado e outras atividades.

O que são cooptechs, as startups cooperativas
Uma outra faceta da adesão do cooperativismo à nova economia está no surgimento das startups cooperativas, também conhecidas como cooptechs. O termo une os conceitos de cooperativismo e tecnologia para se referir às cooperativas que nascem com a cultura de startups.
As startups desenvolvem soluções inovadoras de base tecnológica. Nesse cenário, as cooptechs são cooperativas que atuam em negócios inovadores e ligados ao universo digital, como desenvolvimento de softwares, bancos de dados e consultorias em inteligência artificial, por exemplo.
O conceito de cooptech é novo e ainda não há uma definição oficial. Apesar disso, a ideia de cooptechs já mostra como o cooperativismo é inovador na sua essência e se adapta aos desafios modernos. Desse modo, uma cooptech une o melhor do mundo da inovação com um modelo de negócio justo, focado nas pessoas, com gestão democrática e impacto social.
Âmbito legal das cooptechs
Em 2021, o Marco Legal das Startups entrou em vigor a fim de melhorar o ambiente de negócios para o desenvolvimento de startups e estimular o investimento em inovação no país. A legislação reconhece a importância da inovação como vetor de desenvolvimento econômico, social e ambiental, além de levar segurança jurídica para o setor.
Com articulação do Sistema OCB, o setor cooperativista foi incluído no texto da legislação. Assim, as cooperativas integram os tipos de sociedades jurídicas habilitadas a serem consideradas startups. A inclusão do cooperativismo no ambiente regulatório de startups é importante para o setor continuar avançando com mais empregos, renda e desenvolvimento local.
De acordo com a lei, as startups devem ter faturamento máximo de R$ 16 milhões de reais por ano e até 10 anos de inscrição no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). As cooptechs, portanto, mostram que o cooperativismo é um modelo de negócio adequado para quem quer empreender e inovar no setor da tecnologia, mostrando como o cooperativismo pode ser competitivo e moderno.
Semelhanças e diferenças entre cooperativas de plataforma e cooptechs
Diante do crescimento e da consolidação da economia digital, as cooperativas de plataforma e as cooptechs surgem como duas alternativas de integrar o modelo de negócios cooperativista à vanguarda dos negócios.
Apesar disso, esses dois conceitos não são sinônimos. Em essência, toda cooperativa de plataforma pode ser considerada uma cooptech, mas nem toda cooptech se enquadra na definição de uma cooperativa de plataforma. Vamos entender um pouco mais sobre o que elas têm em comum e também quais são as principais diferenças.
Semelhanças
Tanto as cooperativas de plataforma quanto as cooptechs praticam modelos de negócios inovadores com adesão aos princípios cooperativistas, construindo organizações de base tecnológica aderentes à economia digital sem deixar de lado os valores da colaboração, do desenvolvimento econômico e do trabalho justo.
Desse modo, os dois modelos conseguem gerar impacto social para seus membros e para a comunidade por meio da tecnologia, desafiando a concentração de mercado e propondo alternativas solidárias às mazelas causadas pelo estabelecimento da economia compartilhada.
Diferenças
No entanto, há diferenças entre eles. O termo ‘cooptech’ tem um significado mais amplo, uma vez que descreve todas as cooperativas que nascem com um modelo de negócios digital e inovador, semelhante a uma startup.
As cooperativas de plataforma, por outro lado, foram idealizadas como um modelo focado em corrigir as distorções e a precarização do trabalho geradas pelas grandes plataformas corporativas. Ou seja, as cooperativas de plataforma compõem um subconjunto que integra o ecossistema das cooptechs.
Além disso, o cooperativismo de plataforma também define um movimento específico, com uma agenda própria dedicada a corrigir as distorções e a precarização do trabalho geradas pelas grandes plataformas corporativas. O termo Cooptech, por sua vez, é mais genérico e generalista.
Portanto, enquanto as cooperativas de plataforma, por definição, replicam o modelo de intermediar serviços digitalmente (como transporte, hospedagem e streaming de música), as cooptechs podem atuar em quaisquer outros setores de base tecnológica, sem necessariamente operar uma plataforma.
Conclusão
Em suma, tanto as cooperativas de plataforma quanto as cooptechs demonstram a capacidade do modelo cooperativista de se adaptar e inovar na economia digital. Ambos os conceitos unem tecnologia de ponta com os princípios de gestão democrática, equidade e foco nas pessoas, oferecendo alternativas sustentáveis aos modelos de startups e plataformas tradicionais.
Juntos, eles apontam o caminho para um futuro promissor onde a inovação tecnológica e o bem-estar coletivo podem e devem caminhar lado a lado. Afinal, como diz o tema oficial do Ano Internacional das Cooperativas de 2025, promovido pela ONU, as cooperativas constroem um mundo melhor.