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Cooperativas poderão criar cultura de seguros no Brasil, afirma especialista

Da zona rural, no interior do país, às áreas urbanas castigadas por eventos climáticos extremos, a falta de proteção securitária é uma realidade que atravessa o Brasil. Segundo dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), menos da metade dos brasileiros (46%) têm algum tipo de seguro ou previdência privada. É nesse cenário que o cooperativismo chega ao mercado com potencial para transformar o setor, pela “experiência, governança e compromisso com as pessoas”, na avaliação de Angélica Carlini, que atua há quatro décadas no segmento segurador. 

Angélica Carlini

Advogada, professora e consultora do Ramo Seguros do Sistema OCB, ela acompanha de perto a regulamentação conduzida pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), por meio da Resolução CNSP 492/2026, e ajuda a orientar as cooperativas interessadas em ingressar no setor.  

Para a especialista, a chegada das cooperativas é uma oportunidade histórica de levar proteção securitária a quem o mercado tradicional não alcança e de construir, pela primeira vez em larga escala no país, uma cultura de seguros. 

“É preciso educar para o seguro, formar uma cultura de seguros entre cooperados, ensinar que seguro é um tipo de investimento que pode não trazer recurso econômico, mas evita enormes problemas quando os riscos se materializam”, afirmou Angélica Carlini em entrevista ao Sistema OCB. 

A consolidação do coop de seguros alinha o Brasil a uma realidade global, em que cooperativas e mútuas já respondem por cerca de 26% da atividade securitária, segundo a Federação Internacional de Cooperativas e Seguros Mútuos (ICMIF), participação que supera 40% em países como Estados Unidos, França e Alemanha.

Leia a entrevista completa:

Sistema OCB: A regulamentação abriu portas para a constituição das novas cooperativas de seguros. Como a atuação ampla do cooperativismo impacta o setor? 

Angélica Carlini: Os seguros são essenciais para o desenvolvimento socioeconômico de uma sociedade. Países mais desenvolvidos possuem uma atividade de seguros pujante, o que significa que os seguros estão presentes na vida das pessoas em seu cotidiano, não são um luxo ou algo inatingível, mas um instrumento de proteção com o qual se pode contar de forma contínua. No Brasil, a contratação de seguros ainda é pequena e, principalmente, nem sempre chega àqueles que estão mais expostos aos riscos, o que é uma contradição muito ruim. A chegada das cooperativas de seguros é um fato a ser comemorado. Teremos maior capilarização e, certamente, maior diversidade de produtos de seguro, sempre com adequação às principais necessidades dos contratantes. Por outro lado, as cooperativas de seguros vão atuar em um mercado em que existem amplas oportunidades de crescimento e de sinergia com tudo aquilo que o cooperativismo já desenvolve no país, o que é altamente positivo.

O que os cidadãos têm a ganhar ao escolher uma proteção feita pelo cooperativismo em vez de uma seguradora comum? Quais serão os diferenciais do coop nesse mercado?

A perspectiva é de que ganhe no preço e na adequação do produto de seguro. Seguradoras são sociedades anônimas com custo operacional muito diferente das cooperativas e com a obrigatoriedade de trazer lucro para seus acionistas; só esse detalhe já sinaliza o quão diferente poderá ser a precificação. Além disso, os cooperados poderão organizar melhor as coberturas de seguro em conformidade com aquilo que, realmente, possui necessidade de proteção. Vale destacar, ainda, que as cooperativas poderão ser muito mais ágeis para efetuar o pagamento das indenizações, o que sempre é uma vantagem competitiva.

No cenário global, as cooperativas e mutualistas respondem por até 40% do mercado de seguros em alguns países. Como o Brasil pode alcançar esse patamar?  

No Brasil, o maior diferencial das cooperativas de seguro pode ser chegar em locais onde as seguradoras não chegam, capilarizar a oferta de seguros para uma parcela da população que ainda não contrata e que, muitas vezes, nem conhece seguro de forma satisfatória. Outro diferencial importante é que as cooperativas de seguro poderão oferecer seguros mais adequados ao perfil dos cooperados porque, a rigor, cada cooperado é também um contratante de seguro, ajuda a otimizar as coberturas mais adequadas e necessárias para os cooperados. A experiência internacional será muito válida para que as cooperativas de seguro brasileiras aprendam com os erros e acertos praticados em outras partes do mundo, em especial na América Latina, cujos países guardam muitas semelhanças entre si.

Como o cooperativismo de seguros pode democratizar o acesso a esse serviço e chegar a regiões em que as grandes seguradoras não estão presentes?

O mercado tradicional de seguros é movimentado por sociedades anônimas com capital aberto ou fechado, mas que possuem acionistas, que são investidores e querem ter retorno. Ou seja, as seguradoras precisam dar lucro para que os investidores não desistam dos investimentos feitos. Para isso, é preciso organizar a atividade negocial de forma a atender alguns objetivos muito diferentes daqueles de uma cooperativa. É preciso lembrar, ainda, que a maior parte das seguradoras do país se instalou nos grandes centros urbanos há muito tempo e, desenvolveu estratégias para atuar nessas regiões porque ali estava o seu maior público.

As cooperativas têm uma história diferente, nasceram em locais em que era preciso somar esforços para superar obstáculos e avançar econômica e socialmente, por isso é muito mais fácil para elas atuarem em locais mais distantes das grandes cidades com eficiência e agilidade. É importante lembrar que para chegar a todos os cantos do país há um passo a ser dado e que não pode ser ignorado de forma alguma: é preciso educar para seguro, formar uma cultura de seguros entre cooperados, ensinar que seguro é um tipo de investimento que pode não trazer recurso econômico, mas evita enormes problemas quando os riscos se materializam.

No Brasil ainda não há essa cultura do seguro? 

Não. É comum que alguém diga em uma fábrica ou restaurante: 'estou aqui há 40 anos e nunca tive que pagar uma indenização para ninguém'. O dia que tiver que pagar a primeira, se não tiver contratado um seguro, poderá ter que vender o estabelecimento para poder fazer isso. Ou então alguém que nos diz: “tenho esta casa há 30 anos e nunca tive nenhum problema’. Que bom, porque, sem seguro, um único curto circuito na fiação elétrica pode ser o fim do imóvel se o incêndio destruir tudo. Isso sem falar que as pessoas podem falecer repentinamente e deixar filhos pequenos, dependentes econômicos, que terão muita dificuldade em seguir vivendo com dignidade sem os recursos de seu genitor ou genitora. Não se trata de pensar em tragédias! A educação para o seguro nos ensina a considerar que os acidentes acontecem e que temos que agir de forma preventiva, para evitar que aconteçam; mas também de forma positiva para ter recursos se vierem a ocorrer independentemente das precauções adotadas.

Qual a principal orientação para grupos que estão se organizando para constituir novas cooperativas de seguros e submeter à avaliação da Susep?

Existem vários passos a serem dados e todos são muito importantes para que os resultados finais sejam positivos. O estatuto é desses passos muito importantes. Mas, também é preciso se informar sobre seguros, fazer os cursos que a OCB colocou à disposição na plataforma CapacitaCoop, buscar informações com profissionais que tenham realmente conhecimento para assessorar e, principalmente, seguir corretamente as determinações do órgão regulador, Conselho Nacional de Seguros Privados – CNSP, que se encontra na Resolução 492/2026. A OCB já preparou material sobre esse tema, inclusive um conjunto de Perguntas e Respostas que vai ajudar muito, junto com os minicursos, a expandir o conhecimento das lideranças motivadas para a constituição de cooperativas de seguro.

Assista à live “Cooperativismo de Seguros: a Resolução CNSP 492/2026 e os novos caminhos para o coop”

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