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Mulheres lideram pesquisas sobre cooperativismo

A presença de mulheres na ciência é um fator decisivo para a construção de conhecimento mais diverso e alinhado às demandas da sociedade, além de contribuir para reduzir as desigualdades de gênero, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Celebrado em 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência reforça esse compromisso, que no cooperativismo já se traduz em realidade: as mulheres foram maioria entre os cientistas presentes no último Encontro Brasileiro de Pesquisadores do Cooperativismo (EBPC). 

A data foi criada pela ONU em 2015 para reconhecer o papel fundamental exercido pelas mulheres e pelas meninas na ciência e na tecnologia. No Brasil, segundo dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, apesar de serem maioria entre os bolsistas de mestrado (54%) e doutorado (53%) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), as mulheres representam apenas 35,5% das bolsas de produtividade, destinadas a cientistas com maior destaque na carreira acadêmica. 

No 8º EBPC, realizado em outubro de 2025, mais da metade dos artigos científicos selecionados foram produzidos por mulheres. Dos 67 trabalhos apresentados, 41 foram liderados por pesquisadoras, representando 61% do total. 

priscila andrade 6e4f6A analista de Educação e Desenvolvimento Sustentável do Sistema Ocemg, Priscila Andrade, é uma delas. Graduada em Cooperativismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e ex-integrante do grupo de pesquisa Centro de Referência em Empreendedorismo e Cooperativismo para o Desenvolvimento Sustentável (CREC), a pesquisadora apresentou o trabalho Análise da Segmentação de Cooperados das Cooperativas de Crédito: um estudo de caso, no eixo Governança e Gestão.

Em sua pesquisa, ela concluiu que ainda há um amplo campo a ser explorado nas coops de crédito nas áreas de comunicação e relacionamento, o que pode fortalecer os vínculos com os cooperados e promover resultados financeiros mais positivos para as cooperativas.

“Minha principal área de estudo é entender de que maneira o setor de Organização do Quadro Social (OQS) das cooperativas de crédito pode contribuir para melhorar o relacionamento com os cooperados. O objetivo é aumentar a participação econômica deles na cooperativa e fidelizá-los, analisando os diferentes produtos e serviços que utilizam”, resumiu.

A pesquisadora conta que ficou surpresa com o número de mulheres cientistas apresentando seus trabalhos no EBPC. “Na sala em que estava, por exemplo, fomos maioria. Assim como o número de colaboradoras mulheres vem crescendo em alguns ramos, o número de mulheres pesquisadoras também parece ser uma crescente”, comemora. 

Segundo Priscila, a decisão de produzir pesquisas sobre o cooperativismo surgiu de seu vínculo com o movimento e do interesse em buscar soluções e ferramentas que apoiem as cooperativas em sua atuação pelo desenvolvimento econômico e social nas comunidades em que atuam. “O cooperativismo, para mim, não é apenas uma formação ou trabalho, é uma filosofia de vida. Pesquisar o setor fornece os insumos necessários para atuar com excelência, pois amplia minha compreensão sobre seus princípios e práticas, permitindo que eu compartilhe conhecimentos, transforme aprendizados em ações concretas e aplicáveis”. 

graziela reis 372f1Ciência e coop para a Amazônia

Também da UFV – um dos principais polos de conhecimento cooperativista do Brasil – a mestranda em Administração Graziela Reis se dedica a pesquisar o coop desde 2021, com foco na atuação de cooperativas de agricultura familiar na Amazônia. Segundo ela, ao longo dos anos, o trabalho tem proporcionado não apenas formação técnica, mas também humana. “O cooperativismo me mostrou que as pessoas carregam trajetórias, saberes e experiências próprias, e que soluções efetivas nascem do diálogo, da participação e da construção coletiva”. 

Entre os principais achados de suas pesquisas, Graziela destaca que a organização produtiva em cooperativas faz a diferença para a agricultura familiar na Amazônia. Seus estudos comprovam que, especialmente nessa região do país, o cooperativismo contribui para a redução de assimetrias econômicas e sociais ao fortalecer a autonomia dos produtores locais e criar condições para um desenvolvimento socialmente justo. “No cooperativismo, a pesquisa permite compreender realidades complexas, validar ou revisar práticas existentes, transformar informações em soluções e orientar políticas públicas e iniciativas institucionais mais aderentes às realidades locais”. 

Durante o EBPC, a pesquisadora apresentou o trabalho Cooperativas da Agricultura Familiar na Amazônia Brasileira: diagnóstico e perspectivas para a ação pública, em que ressaltou a necessidade de que os governos consolidem uma agenda contínua e estruturada de apoio a esses empreendimentos, reconhecendo o papel estratégico do cooperativismo para a região.

“Espaços como o EBPC são fundamentais para o compartilhamento de resultados de pesquisa e de experiências empíricas, para o diálogo qualificado entre pesquisadores de diferentes áreas e regiões do país e para a construção de novas agendas de investigação”, avaliou. 

daniele scopel ac246Educação e inovação

A assistente de crédito do Sicoob Costa do Descobrimento e integrante do Comitê de Jovens Geração C do Sistema OCB, a pesquisadora Daniele Scopel também se dedica a produzir ciência sobre o coop. Ela participou do 8º EBPC como co-autora da pesquisa A crítica ao paradigma proprietário em Locke: individualismo possessivo e a proposta cooperativista, no eixo Identidade Cooperativa e Direito Cooperativo.

Segundo Daniele, seu interesse científico pelo cooperativismo surgiu a partir de sua atuação profissional no movimento, quando passou a compreender as cooperativas como espaços que vão além do trabalho, capazes de transformar vidas e realidades. “É um caminho eficaz para um desenvolvimento mais justo e sustentável, no qual todos trabalham, participam das decisões e compartilham os resultados do crescimento”, afirma. Para ela, pesquisar o cooperativismo também representa a oportunidade de aprofundar um tema com o qual tem afinidade e que integra seu cotidiano profissional.

flavia zancan 2 c6d7eCiência no ramo Crédito

A doutora em Controladoria e Contabilidade pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da Universidade de São Paulo (USP), Flávia Zancan, também tem muito a contribuir com o cenário de pesquisa sobre o movimento coop. Tanto é que sua tese de doutorado, defendida em 2025, foi indicada ao Prêmio de Melhor Tese do Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo (CRC-SP).

Foi durante o doutorado na USP que Flávia conheceu o movimento, quando fez parte do Observatório do Cooperativismo da USP, grupo dedicado a gerar e disseminar o conhecimento sobre as cooperativas no Brasil. Hoje, a pesquisadora se dedica a estudos sobre as cooperativas de crédito e a importância da supervisão regulatória e do contexto econômico nas decisões financeiras e na adaptação do segmento. 

No 8º EBPC, Flávia apresentou o estudo Avaliação do desempenho financeiro e social de cooperativas de crédito brasileiras por meio do método AHP-Gaussiano – no eixo Contabilidade, Finanças e Desempenho – que indica ferramentas para a construção de um ranking de cooperativas de crédito, identificação de disparidades de desempenho e suporte para a tomada de decisões estratégicas e governança cooperativa. O trabalho ficou entre os 50 melhores do evento. “Os achados das nossas pesquisas subsidiam gestores, conselhos de administração e formuladores de políticas públicas na definição de estratégias, na alocação mais eficiente de recursos e no aumento do impacto econômico e social das cooperativas”, explica.

Segundo ela, o ambiente de conhecimento compartilhado no EBPC contribuiu para o aprimoramento de sua pesquisa, especialmente pelas trocas com colegas, contribuições práticas e ajustes para submissão à revistas científicas. 

Cultura organizacional

A mestra em Educação e especialista em Gestão de Pessoas, Cultura Organizacional e Gestão de Cooperativas, Graça Souza, é mais uma pesquisadora que tem feito a diferença no universo acadêmico do cooperativismo, especialmente em temas ligados aos ramos Crédito e Agropecuário.

graca souza2 7ebc2Seu vínculo com o movimento cooperativista começou há quase 10 anos, quando desenvolveu um projeto junto ao Sistema OCB/Rondônia, trabalho que despertou na pesquisadora um olhar mais atento para o cooperativismo e seus princípios. Atualmente, ela se dedica a investigar fatores que influenciam o fortalecimento da cultura organizacional, o engajamento das pessoas e a promoção da segurança psicológica como caminhos para a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis e cooperativos.

“Minha principal linha de pesquisa está voltada à gestão estratégica de pessoas e à cultura organizacional no contexto cooperativista. Busco compreender como os valores cooperativistas, as práticas de gestão e os processos educativos contribuem para o fortalecimento do cooperativismo e para a sustentabilidade das organizações”, resume a autora da pesquisa A Gestão de Pessoas e a Cultura Organizacional como Estratégias Formativas em Cooperativa de Crédito, também apresentada no 8º EBPC, no eixo Educação, Inovação e Diversidade. 

Segundo Graça, estudar o cooperativismo permite transformar conhecimento em ações concretas, especialmente na integração entre cultura organizacional, gestão de pessoas e desenvolvimento de lideranças. “Esses estudos contribuem diretamente para a construção de ambientes de trabalho mais humanizados, cooperativos e alinhados aos princípios do movimento cooperativista, com impacto real na vida das pessoas e das organizações”. 

Mais participação

Apesar do cenário positivo, as mulheres pesquisadoras relatam desafios para garantir e ampliar a presença feminina na ciência. “A pesquisa realizada por mulheres no Brasil tem apresentado avanços. Ainda que esses progressos ocorram de forma lenta, eles se dão em um cenário marcado por limitações estruturais e institucionais”, destaca a pesquisadora Flávia Zancan. 

Entre os principais desafios relatados pelas pesquisadoras cooperativistas estão:

- Dificuldade de acesso a posições de liderança no espaço acadêmico;

- Consolidação de fontes de pesquisa que deem visibilidade à atuação das mulheres no cooperativismo;

- Insuficiência de incentivo e apoio financeiro às pesquisas;

- Visibilidade, reconhecimento acadêmico e conciliação entre pesquisa, trabalho e vida pessoal.

Mulheres no coop

As mulheres compõem 42% do quadro social das cooperativas brasileiras, representando mais de 10 milhões de mulheres cooperadas, de acordo com o AnuárioCoop 2025. Elas também são a maioria entre os empregados das coops, com 52%, com destaque para os ramos Consumo, Crédito, Saúde e Trabalho, Produção de Bens e Serviços.

 

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