Cooperativas ganham espaço no debate sobre futuro da energia no Brasil
Missão do Sistema OCB e da EPE no Paraná conecta experiências do setor ao planejamento nacional
O cooperativismo quer ampliar sua participação nas discussões sobre o futuro da energia no Brasil. Em missão técnica realizada no Paraná, representantes do Sistema OCB, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Sistema Ocepar conheceram experiências de cooperativas que mostram, na prática, como o setor pode contribuir para geração e distribuição de energia, aproveitamento de resíduos, eficiência energética e planejamento da infraestrutura do setor no país.
A agenda ocorreu em meio a um novo passo na relação entre as instituições. Em 9 de setembro, Sistema OCB e EPE formalizaram um Protocolo de Intenções, com vigência de três anos, para ampliar a cooperação em pesquisas e iniciativas relacionadas a comunidades energéticas, além de temas como planejamento, eficiência e transição energética; sustentabilidade; e energias renováveis.
No Paraná, com apoio do Sistema Ocepar, a comitiva visitou Cercar, Copacol, Primato e C.Vale. Representantes da Lar e da Agrária também participaram das discussões realizadas na C.Vale. A diversidade das organizações permitiu observar tanto a atuação histórica das cooperativas na distribuição de eletricidade quanto em novas soluções desenvolvidas pelo cooperativismo agropecuário.
Para Thayná Côrtes, analista de Infraestrutura do Sistema OCB, a aproximação permite levar ao debate energético informações que nascem da realidade das cooperativas e dos territórios onde elas atuam. “As cooperativas conhecem de perto as necessidades dos produtores, das comunidades e das regiões onde estão presentes. Essa experiência pode oferecer informações importantes para o planejamento energético e, ao mesmo tempo, mostrar como o cooperativismo já desenvolve soluções em geração, eficiência, sustentabilidade e aproveitamento de resíduos”, afirmou.
A missão no Paraná deu continuidade a uma agenda iniciada no Rio Grande do Sul, onde foram visitadas Certaja e Coopernorte, cooperativas permissionárias de distribuição de energia. Além das visitas presenciais, o Sistema OCB vem apoiando a EPE na identificação de cooperativas para entrevistas, com o objetivo de incorporar diferentes experiências, regiões e modelos cooperativos ao estudo sobre comunidades energéticas.
Além da distribuição
Um dos diferenciais da passagem pelo Paraná foi ampliar o olhar para além das cooperativas que atuam diretamente no setor elétrico. A inclusão de cooperativas agropecuárias permitiu mostrar como a energia se tornou um elemento estratégico também para produção, processamento e logística no campo.
Nas visitas, foram apresentadas experiências de geração própria, produção de biogás e biometano, aproveitamento energético de resíduos e adoção de novas fontes e tecnologias. Também entraram na discussão problemas relacionados à qualidade, estabilidade e continuidade do fornecimento de eletricidade para atividades produtivas.
Para Vinicius Rosenthal, analista da EPE, conhecer essas experiências em campo ajuda a ampliar a compreensão sobre a relação entre produção, território e demanda energética. “Quando vamos às cooperativas, conseguimos enxergar aspectos que os dados, isoladamente, nem sempre mostram. Entender como a energia interfere na produção, quais soluções já estão sendo desenvolvidas e quais dificuldades aparecem nos territórios é fundamental para enriquecer os estudos”, descreveu.
A proximidade das cooperativas com produtores e comunidades também pode fornecer informações sobre expansão das atividades econômicas, necessidades de investimento e gargalos de infraestrutura. Segundo Gabriel Konzen, consultor na EPE, as visitas mostraram que o potencial da cooperação entre as instituições ultrapassa o estudo inicialmente dedicado às comunidades energéticas.
“O trabalho começou com o olhar sobre comunidades energéticas, mas as visitas mostram uma agenda muito mais ampla. Encontramos experiências relacionadas a biogás, biometano, geração própria, qualidade do fornecimento, eficiência energética e economia circular. É um conjunto de informações que ajuda a compreender melhor o papel que iniciativas locais e coletivas podem desempenhar no setor energético”, avalia.
Do resíduo ao combustível
Na Primato, uma das experiências que chamou a atenção foi a produção de biometano a partir de dejetos da suinocultura. A solução nasceu de um problema concreto dos cooperados: a necessidade de dar destinação adequada ao volume de resíduos gerado pela produção de suínos.
Por meio da biodigestão, os dejetos passam a ser utilizados para produzir biometano. O combustível é empregado em veículos da própria operação, inclusive caminhões usados no carregamento de ração. O processo também permite aproveitar outros subprodutos, que podem ser destinados à produção e comercialização de fertilizantes.
A iniciativa evidencia uma característica do modelo cooperativista: transformar um desafio comum dos produtores em uma solução coletiva com resultados econômicos e ambientais.
Na Copacol, a comitiva conheceu outra aplicação dessa lógica. A cooperativa utiliza biogás para geração de energia e também aproveita subprodutos resultantes da biodigestão em sua atividade produtiva. As duas experiências mostram como resíduos da produção agropecuária podem retornar à cadeia como fonte de energia e novos insumos.
Energia no campo
Na Cercar, a agenda recuperou a trajetória das cooperativas de eletrificação rural e o papel desempenhado por essas organizações no desenvolvimento de regiões que, historicamente, não eram atendidas de forma satisfatória pelas distribuidoras tradicionais.
Criadas a partir da mobilização de produtores e moradores, essas cooperativas ajudaram a construir a infraestrutura necessária para levar eletricidade ao meio rural. A chegada da energia contribuiu para mecanização, armazenamento, irrigação, geração de renda, melhoria das propriedades e instalação de novas atividades econômicas.
O crescimento dessas regiões, no entanto, trouxe novos desafios. Cooperativas autorizadas de distribuição enfrentam limitações regulatórias, especialmente por estarem vinculadas ao atendimento de consumidores classificados como rurais. Em determinadas localidades, a economia e as características de consumo mudaram ao longo das décadas, enquanto as regras não avançaram na mesma velocidade.
Para Silvio Krinski, coordenador do Sistema Ocepar, compreender essa trajetória também é importante para discutir o futuro da infraestrutura energética dessas regiões. “As cooperativas tiveram papel decisivo no desenvolvimento de muitas comunidades rurais. A energia permitiu que a produção avançasse, que novos negócios surgissem e que essas regiões se desenvolvessem. Hoje, precisamos olhar também para os desafios que esse próprio crescimento trouxe e discutir condições para que a infraestrutura energética continue acompanhando o desenvolvimento dos territórios”, declarou.
Já o presidente da Cercar, Celso Prediger, agradeceu à EPE, Sistema OCB e Ocepar pela oportunidade. “Foi um diálogo muito construtivo sobre o desenvolvimento das comunidades energéticas. Uma oportunidade para compartilhar experiências, fortalecer parcerias e contribuir para um setor elétrico mais cooperativo e sustentável. Esperamos que este seja o início de novas oportunidades de diálogo e colaboração", destacou.
Infraestrutura estratégica
Na C.Vale, a comitiva conheceu parte da estrutura produtiva da cooperativa, incluindo a produção e o processamento de tilápias. Representantes da Lar e da Agrária também participaram das discussões, ampliando o debate sobre os desafios energéticos enfrentados pelas cooperativas agroindustriais.
Um dos principais pontos levantados foi a qualidade do fornecimento de energia. Para determinadas atividades produtivas, não basta que a eletricidade esteja disponível. Oscilações, interrupções ou problemas de qualidade podem afetar processos industriais e comprometer a continuidade da produção. Nesse cenário, a energia deixa de ser vista apenas como um custo ou insumo e passa a ser tratada como infraestrutura estratégica para o desenvolvimento das atividades produtivas.
A discussão também mostrou como o conhecimento acumulado pelas cooperativas pode contribuir para esse processo. Por acompanharem diretamente o crescimento das atividades econômicas e as necessidades dos cooperados, essas organizações podem fornecer informações sobre demandas futuras de energia, gargalos de infraestrutura e necessidades de investimento.
Planejamento de longo prazo
A assinatura do Protocolo de Intenções consolida a aproximação entre Sistema OCB e EPE e abre caminho para que a experiência das cooperativas seja considerada em diferentes discussões sobre o futuro energético brasileiro. Segundo Thayná Côrtes, o objetivo é transformar a proximidade do cooperativismo com os territórios em uma fonte permanente de informações e experiências para o planejamento energético.
“O Sistema OCB pode fazer essa ponte entre a EPE e as cooperativas, para levar experiências que já existem e, ao mesmo tempo, apresentar as necessidades encontradas nos territórios. Queremos que essa aproximação tenha continuidade e permita que o conhecimento acumulado pelo cooperativismo contribua cada vez mais para as discussões sobre energia no país”, defendeu.
