Cultura se constrói no dia a dia e começa pela liderança, afirma especialista
A cultura de uma organização é estruturada nas decisões e comportamentos que se repetem no dia a dia. Para as cooperativas, isso significa transformar princípios e valores em práticas concretas, a partir de relações de confiança, clareza sobre o que se espera das equipes e, sobretudo, do exemplo de quem lidera. É essa coerência entre o que se diz e o que se faz que dá vida à cultura, segundo Dafna Blaschkauer, especialista no tema.
“A cultura é a infraestrutura, é o DNA da sua empresa, da sua cooperativa, é o seu grande diferencial”, afirmou a executiva em palestra durante a Semana de Competitividade 2026. Em entrevista durante o evento, ela também destacou o papel da liderança em fortalecer a cultura por meio do exemplo, com coerência entre o que se fala e o que se faz.
Ex-atleta e campeã brasileira de tênis aos 18 anos, Dafna liderou equipes em algumas das maiores empresas do mundo – Nike, Apple e Microsoft – e atualmente é professora na Fundação Getulio Vargas (FGV) e na Universidade de São Paulo (USP).
Leia a entrevista completa:
Sistema OCB: Sua palestra destacou a importância de entender a cultura organizacional como parte do dia a dia. Para as cooperativas, como esse olhar pode ajudar a transformar valores em comportamentos dentro das equipes?
Dafna Blaschkauer: Bom, em primeiro lugar, a gente precisa entender o que é a cultura. De uma forma muito simples, cultura é a combinação dos valores, das crenças e comportamentos que são repetidos todos os dias. Então, é extremamente importante que os líderes estejam atentos àquilo que eles estão recompensando diariamente, que tipo de comportamento eles estão tolerando e, principalmente, sobre como liderar pelo exemplo.
Vale a reflexão sobre o que cada líder está fazendo diariamente, mais do que aquilo que está falando. Eu costumo dizer o seguinte: 'O seu time não faz aquilo que você fala, seu time faz aquilo que você faz.' Então, se para você, líder, é extremamente importante que seu time entregue um trabalho com qualidade, com excelência, liderar pelo exemplo começa por você entregar com essa qualidade e confiança.
Para que essa cultura se fortaleça no dia a dia, qual é a importância da relação de confiança entre a liderança e as equipes?
A confiança é o maior ativo da liderança. De forma que você estabeleça relações com a sua equipe, desenvolva relações de confiança e esse comportamento esperado vai sendo repetido. Mas, para isso, você precisa ser coerente e consistente. Existem quatros Cs da liderança: clareza, coerência, consistência, e coragem; e o primeiro C, não à toa, é clareza.
O time tem que ter clareza. Qual é a estratégia junto com a cultura para você atingir este resultado? O que significa na prática? O que é esperado? Muitas vezes, os colaboradores sequer sabem aquilo que é esperado; eles são apenas cobrados. É um microgerenciamento.
Como essa estratégia da clareza pode ser colocada em prática?
O meu time não segue aquilo que eu falo, segue aquilo que eu faço. Em inglês, tem uma expressão boa para isso, walk the talk: ser coerente entre o que você pensa, o que você fala e como você age. Se para mim é importante que meu time seja pontual, isso começa comigo. Se é importante que tenha foco, meu papel é dar clareza sobre qual é a prioridade.
E tudo isso se conecta na ideia dos quatro Cs: clareza na direção; coerência com essa direção; consistência, que é repetição; e coragem. Coragem porque liderar não é sobre ser popular, não é concurso de simpatia. É sobre ter coragem para tomar as decisões que são importantes para o negócio, mesmo quando elas não são convenientes para você.
Qual o papel da escuta nesse processo? Como as lideranças das cooperativas podem olhar para as diferenças dentro das equipes e contribuir para o desenvolvimento das pessoas?
Cada pessoa do seu time performa de um jeito diferente e é seu papel, como líder, desenvolver essas pessoas, colocá-las nos lugares em que elas melhor performam. Por isso gosto tanto da analogia com o esporte. Para o técnico de uma equipe, não basta contratar bem. Ele contrata bem, desenvolve, treina bem e coloca cada pessoa, cada peça no lugar para poder performar. Então, essa combinação de clareza, de contratação, de repetição de valores no dia a dia... E mais importante do que falar é fazer, é liderar pelo exemplo.
Quais as principais orientações sobre cultura e liderança para as cooperativas?
Primeiro: cultura não é o que você diz, é o que você faz, o que você tolera e o que você recompensa. Segundo: você não terceiriza cultura, não compra cultura; você vivencia na prática, no dia a dia. Terceiro: a cultura começa no topo, é moldada pelos fundadores, mas sobrevive na base. Quarto: o que é recompensado na sua organização revela o que é, de fato, priorizado. E liderar pelo exemplo não é a melhor forma de liderar: é a única.
A liderança é uma escolha, a cultura é uma escolha. Escolha é o seu superpoder. Todo dia, a cada minuto, vocês estão escolhendo. A cada decisão, você multiplica o que você reproduz. Façam com que essa escolha da sua liderança e da sua cultura seja consciente. As pessoas não se apaixonam pelas cooperativas. As pessoas se apaixonam pela cultura das cooperativas. As pessoas se apaixonam pelas pessoas, pela liderança dessa cooperativa.
