Cooperativas de artesanato ampliam mercados do Ceará a Paris
Fenacce reúne 12 cooperativas em Fortaleza, enquanto Jornada Exportadora conecta artesanato brasileiro a compradores europeus
Do Ceará a Paris, o artesanato cooperativo brasileiro ganha novas vitrines e amplia conexões comerciais no Brasil e no exterior. Em setembro, o Sistema OCB participa de duas frentes voltadas ao acesso a mercados: a 8ª Feira Nacional de Artesanato e Cultura (Fenacce), em Fortaleza, e a Jornada Exportadora do Artesanato – Paris 2026, realizada pela ApexBrasil, parceira estratégica do Sistema OCB na promoção internacional das cooperativas do segmento.
As iniciativas fazem parte da estratégia dos programas NegóciosCoop Mercados Nacional e Internacional, do Sistema OCB, que atuam para ampliar o acesso das cooperativas a mercados, gerar oportunidades comerciais e aproximá-las de compradores, lojistas, parceiros e novos canais de venda, no Brasil e no exterior. O movimento também evidencia a capacidade do cooperativismo de transformar conhecimentos tradicionais, identidade cultural e produção coletiva em produtos com valor agregado, geração de renda e oportunidades para as comunidades.
“A participação em feiras e rodadas de negócios permite que as cooperativas ampliem sua presença comercial, conheçam novos compradores e estejam mais preparadas para acessar diferentes mercados. Nosso objetivo é criar condições para que elas transformem essas conexões em oportunidades concretas e sustentáveis de negócios”, afirma Pâmella Jerônimo de Lima, coordenadora de Negócios do Sistema OCB.
Fenacce reúne 12 cooperativas de nove estados
Realizada de 4 a 13 de setembro, no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza, a Fenacce conta com um estande exclusivo de 84 m² do Sistema OCB. O espaço reúne 12 cooperativas de artesanato de nove estados: Arteza (PB), Bordana (GO), Coopercrutac (RN), Cobarts (RN), Coomajt (PB), Dedo de Gente (MG), Turiarte (PA), Mulheres de Barro (PA), Cooperartban (AL), Coopervej (CE), Luz e Arte (MA) e Copamart (AM).
No estande, o público encontra diferentes expressões do artesanato cooperativo brasileiro, com bordados, cerâmicas, cestarias, esculturas em ferro e barro, itens de decoração, peças artesanais e alimentos. A diversidade representa técnicas, culturas e tradições das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.
Além da exposição e comercialização dos produtos, as cooperativas participam de visitas técnicas orientadas à Central de Artesanato do Ceará (CeArt) e ao Centro das Rendeiras da Prainha de Aquiraz. As atividades foram estruturadas para estimular a observação de práticas, soluções e formas de organização que possam ser adaptadas posteriormente à realidade de cada cooperativa.
A metodologia segue o percurso de observar, perguntar, aprender e identificar o que pode ser incorporado aos negócios. A proposta é fazer com que a participação na feira vá além da comercialização imediata e contribua também para aprimorar gestão, posicionamento e estratégias de mercado.
A Fenacce se consolidou como uma importante plataforma para o setor. Em 2025, foram 390 estandes, mais de 2,5 mil artesãos e aproximadamente 41 mil visitantes. A edição registrou ainda expectativas superiores a R$ 24 milhões em negócios para os meses seguintes.
De Fortaleza para o mercado internacional
Enquanto cooperativas apresentam seus produtos ao mercado brasileiro no Ceará, outra frente da estratégia ocorre na França. Com apoio do Sistema OCB, Comart (RN), Copamart e Turiarte participam da Jornada Exportadora do Artesanato – Paris 2026. Copamart e Turiarte também participam como expositoras da Maison & Objet.
A programação começou, na segunda-feira (7), com um seminário dedicado ao mercado francês. Os debates abordaram regras e canais de comercialização, tendências de consumo, posicionamento e estratégias para alcançar consumidores franceses de alto padrão.
Na terça-feira (8), a delegação participou de visitas técnicas a espaços comerciais e de design, entre eles Galeries Lafayette, Galerie Brazil Modernist, Le Bon Marché e Sinara Boutique. Já na quarta-feira (9), as cooperativas tiveram um dia dedicado às rodadas de negócios com potenciais compradores.
Nesta quinta-feira (10), a agenda chegou à Maison & Objet, uma das principais vitrines internacionais dos segmentos de decoração, design e lifestyle. A programação prevê visita à feira, encontro da delegação no Pavilhão da ApexBrasil, cerimônia oficial de abertura do Pavilhão Brasileiro e visita guiada.
Para Jessica Alencar Dias, analista de Negócios Internacionais do Sistema OCB, a iniciativa tem um impacto que ultrapassa a própria comercialização dos produtos. “Para o artesanato brasileiro, acessar o mercado internacional é especialmente estratégico porque amplia as possibilidades de geração de renda e, ao mesmo tempo, valoriza produtos que carregam identidade, cultura, design e a história dos territórios onde são produzidos”, descreve.
Ainda segundo ela, os resultados estão diretamente relacionados ao propósito do cooperativismo. “Quando uma cooperativa conquista um novo mercado, o resultado não fica concentrado em uma única pessoa. Ele chega aos cooperados, às suas famílias e movimenta economicamente as comunidades locais”, acrescenta.
Outro ponto destacado pela analista é o impacto da abertura de mercados para as mulheres, que têm forte presença nas cooperativas de artesanato. “Ampliar as oportunidades comerciais dessas cooperativas significa também contribuir para a autonomia econômica de muitas mulheres, para a geração de renda e para o desenvolvimento dos territórios onde elas vivem. Por isso, apoiar a internacionalização dessas cooperativas é, para o Sistema OCB, uma forma muito concreta de promover negócios e desenvolvimento local ao mesmo tempo”, conclui.
Negócio fechado
Os primeiros resultados da Jornada já começaram a aparecer. Para a Comart, cooperativa do Rio Grande do Norte especializada em bordados artesanais, a rodada resultou em um negócio fechado com uma compradora da Grécia e abriu perspectivas de negociações com Portugal e Bélgica. “As reuniões foram bem proveitosas. Estou muito feliz com o resultado, com um negócio fechado com a compradora da Grécia e mais dois possíveis em andamento cm Portugal e Bélgica”, relatou a presidente Jailma Araújo.
Segundo ela, os compradores demonstraram interesse tanto nas peças, quanto na forma como são produzidas. “Eles mostraram interesse e curiosidade no processo de desenvolvimento dos nossos produtos, na variedade de pontos e nas texturas únicas”.
A Comart trabalha com bordados produzidos inteiramente à mão, reunindo técnicas tradicionais e máquinas de costura acionadas a pedal. A produção inclui peças para cama, mesa e banho, decoração e moda. Os bordados produzidos na região contam ainda com Indicação Geográfica (IG) concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), reconhecimento relacionado à origem e às características do trabalho artesanal local.
Novos produtos
A Copamart, de Manaus (AM), também saiu das reuniões com perspectivas de continuidade das negociações. Compradores solicitaram imagens de outros produtos da cooperativa para avaliar aquisições e, em alguns casos, sinalizaram o envio de desenhos e referências para o desenvolvimento de peças exclusivas. “A Rodada de Negócios foi muito boa para nós. Tivemos a oportunidade de apresentar nossos produtos, entender melhor o que os compradores europeus procuram e receber retornos muito importantes sobre o potencial do nosso trabalho”, afirmou a presidente da cooperativa, Terezinha Lira.
Para ela, os contatos feitos em Paris demonstram que há espaço para o artesanato da cooperativa na Europa, embora as conversas ainda estejam em estágio inicial. “Como ainda estamos no começo das negociações, é cedo para falar em valores fechados, mas saímos da rodada com ótimos contatos e portas abertas para continuar essas conversas depois”, completou.
Fundada em 2011 e sediada em Manaus, a Copamart reúne 14 artesãs e produz biojoias, acessórios de moda e itens de decoração utilizando fibras naturais, sementes, madeira, têxteis e materiais reciclados.
Identidade amazônica
Também presente na Jornada, a Turiarte levou à Europa peças produzidas por mulheres de comunidades da região do Rio Arapiuns, no Pará. “O feedback foi muito positivo. Os compradores destacaram principalmente a identidade do nosso artesanato, o colorido das peças e o fato de trabalharmos com princípios de comércio justo. Isso mostrou para nós que existe, sim, potencial para os produtos da Turiarte no mercado europeu”, contou Natália Dias, presidente da cooperativa.
Um dos sinais positivos surgiu depois da própria rodada. Uma lojista indicou os produtos e compartilhou o contato da cooperativa com outros comerciantes que não haviam participado das reuniões. Para Natália, a experiência também permitiu identificar os ajustes necessários para avançar no comércio exterior. “Além das reuniões de negócios, estamos tendo a oportunidade de conhecer melhor o mercado internacional, trocar experiências e entender o que precisamos aprimorar para estar cada vez mais preparados para exportar nossos produtos, inclusive em questões práticas, como embalagem, logística e envio das peças”, explicou.
Fundada em 2015 às margens do Rio Arapiuns, no Pará, a Turiarte nasceu da união de sete comunidades e da força de 70 mulheres. Atualmente, reúne mais de 130 mulheres, que encontram no trabalho artesanal com a palha de tucumã uma fonte de renda, autonomia econômica e preservação da cultura local.
