O cooperativismo que transforma e amplia desenvolvimento local
Painel da Semana de Competitividade mostrou exemplos de geração de renda, inclusão e qualidade de vida
O impacto de uma cooperativa vai muito além dos resultados do próprio negócio. Quando chega a uma comunidade, o modelo pode movimentar a economia, ampliar o acesso a serviços, gerar oportunidades e estimular iniciativas que permanecem no território. O painel O impacto do coop nas comunidades, realizado nesta terça-feira (11), durante a Semana de Competitividade 2026, reforçou essa realidade.
A discussão reuniu Clara Pedroso Maffia, gerente geral de Negócios do Sistema OCB; Alison Pablo de Oliveira, pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe); Ivan Capra, presidente do Sicoob Credisul; Claudia Maria Morais, diretora financeira da Central Centro-Oeste (CCO); e Marina Stoetzer Echeverria, coordenadora da Cooperativa Agrária. 
Na abertura, Clara explicou que a proposta era mostrar como a cultura cooperativista se traduz em resultados concretos. “A ideia é falarmos um pouquinho sobre o impacto, porque essa cultura, essa forma de agir, relacionar e atuar junto com as pessoas, a partir de princípios e valores, certamente tem impacto nos municípios onde as cooperativas estão inseridas”, destacou.
O impacto que aparece nos dados
Alison apresentou os resultados de estudo desenvolvido pela Fipe em parceria com o Sistema OCB. A pesquisa mediu os efeitos da expansão do cooperativismo sobre as economias locais, ao comparar municípios que passaram a contar com novas cooperativas com aqueles sem registro dessa presença. Entre 1995 e 2025, o número de municípios atendidos por cooperativas cresceu 65%. “A expansão permitiu observar mudanças em indicadores como emprego e renda”, relatou.
A pesquisa também dimensionou a participação do cooperativismo na economia brasileira. Em 2021, os empreendimentos cooperativos estiveram associados a R$ 866 bilhões em produção de bens e serviços, R$ 164 bilhões em valor adicionado — equivalente a 6,9% do total produzido no país — e cerca de 10% dos empregos formais e informais. Segundo Alison, esse impacto está relacionado às características do próprio modelo, no qual os cooperados são donos do empreendimento, participam das decisões e compartilham os resultados gerados.
Crédito que movimenta as cidades
A experiência do Sicoob Credisul mostrou como os efeitos econômicos e sociais podem caminhar juntos. Ivan Capra apresentou exemplos de municípios onde a cooperativa participa da dinâmica econômica local e direciona parte de sua atuação para projetos definidos pela própria comunidade. “Em todas as localidades em que a comunidade nos abraça, criamos ou encampamos projetos que essa própria comunidade julga importantes e damos sequência. É um DNA, um jeito de fazer que tem dado muito certo e nos tem levado a lugares fantásticos”, pontuou. Entre os exemplos apresentados estão iniciativas nas áreas de educação, inovação, esporte, meio ambiente e saúde.
Em Vilhena (RO), a cooperativa apoiou a criação de uma estrutura educacional de 60 mil metros quadrados, com atendimento do maternal ao ensino superior. Também foi apresentado o Hospital Cooperar, construído a partir de uma mobilização entre cooperados e comunidade, posteriormente estruturado em parceria com a Unimed. “Tínhamos uma deficiência na área da saúde e resolvemos. Criamos uma associação dentro da cooperativa para construir o hospital com doações dos cooperados”, contou.
A unidade tem 12 mil metros quadrados, com área de expansão já preparada, e atende diferentes especialidades. A parceria com a Unimed permitiu a operação e o aporte de equipamentos. O dirigente também citou ações ambientais e esportivas, além da participação de jovens da região em um hackathon internacional promovido pela Nasa.
Protagonismo aos catadores
Na reciclagem, o impacto do cooperativismo aparece na organização do trabalho e na busca por melhores condições para quem vive da atividade. Claudia Marins apresentou a trajetória da Central Centro-Oeste (CCO), formada por cinco cooperativas e cerca de 279 cooperados. Criada há três anos, a iniciativa nasceu do desejo de fortalecer a atuação dos catadores e ampliar sua capacidade de negociação. “Formamos essa central para o catador se tornar protagonista de sua própria história. O catador tem que aparecer. Se ele não aparece, não tem importância para a reciclagem. Nós, catadores, sempre fomos mais esquecidos, mais excluídos. E hoje nós temos mais força graças ao cooperativismo”, relatou emocionada.
A atuação em rede também abriu espaço para novas iniciativas de capacitação e comercialização. Uma parceria com o Sescoop e a Universidade Católica de Brasília possibilitou a formação de cooperados e filhos de catadores em um curso superior de tecnologia em cooperativismo. Dos 25 participantes, 23 concluíram a formação. A central também começou a comercializar materiais de forma conjunta. Nos três meses anteriores ao painel, as cooperativas haviam vendido mais de 600 toneladas de materiais em conjunto.
O próximo passo, segundo Claudia, é ampliar a autonomia econômica das cooperativas, com participação em editais e contratos de grandes geradores e investimentos em equipamentos. A central já conta com caminhão, prensa e estrutura para ampliar a operação. “Juntos, somos mais fortes”, completou.
Uma história que começou há 75 anos
Na Cooperativa Agrária, apresentada por Marina, o compromisso com a comunidade está ligado à própria origem da organização. Fundada há 75 anos por imigrantes suábios do Danúbio, que chegaram ao Paraná após a Segunda Guerra Mundial, a cooperativa surgiu da necessidade de reconstruir a vida de centenas de famílias e garantir acesso à saúde, educação e preservação cultural.
Ao longo das décadas, esse esforço deu origem a uma estrutura que inclui hospital, escola, museu e outras iniciativas comunitárias. O hospital tornou-se referência regional e hoje realiza cerca de 70% dos atendimentos pelo SUS, com importância reforçada pela distância de aproximadamente 45 minutos até a cidade mais próxima. “Quando alguém que está com uma necessidade muito urgente, ter um hospital no local é muito importante. Salva vidas”, enfatizou Marina.
Na educação, a escola apoiada pela cooperativa atende estudantes dos dois anos de idade ao ensino médio e oferece ensino bilíngue em alemão. A atuação social inclui ainda o Programa Paz, que há mais de duas décadas mobiliza colaboradores em ações voluntárias. “Para a Agrária isso é tão importante que essa parte social hoje está dentro do planejamento estratégico da cooperativa”, finalizou.
