Educação cultiva pertencimento e futuro no cooperativismo
Conhecimento, confiança, participação e cultura ajudam a preservar a essência do movimento
Manter viva a essência do cooperativismo em organizações que crescem, recebem novas gerações e acompanham as transformações da sociedade exige intenção, aprendizado e participação. Na trilha Educação Cooperativista, da Semana de Competitividade 2026, especialistas e representantes do movimento mostraram como a educação fortalece o pertencimento, aproxima cooperados, forma novas lideranças e ajuda a transformar os valores cooperativistas em práticas capazes de atravessar gerações e preparar as cooperativas para o futuro. 
A programação contou com José Máximo Daronco, diretor geral da Escoop; Hugo Andrade, coordenador de Ramos do Sistema OCB; Rogério Machado, superintendente da Fundação Sicredi; Fernanda Paiva, analista do Instituto Sicoob; Débora Ingrisano, gerente de Desenvolvimento de Cooperativas do Sistema OCB; Helena Soares, pesquisadora da TM20; Tania Savaget, CSO da Zaic; Cláudia Moreno, coordenadora Educacional do Sistema OCB; Itamar Vodzicki, gerente da Cresol Instituto; Thaís Cristina, coordenadora de Organização do Quadro Social na Rede Cooper; Ricardo Leite, palestrante da Resultte Educação Corporativa; e Ricardo Cappra, fundador do Cappra Institute.
Na abertura das apresentações, José Máximo destacou que a educação é fundamental para preservar a identidade cooperativista à medida que as organizações crescem. “Quanto maior a cooperativa, mais intencional precisa ser a construção de sua cultura”.
Entre os cases apresentados, Rogério Machado trouxe o Programa Crescer. Ele começou contextualizando o tamanho do Sicredi hoje, com mais de 10 milhões de associados, 99 cooperativas e 3 mil agências, para mostrar que quanto maior a cooperativa fica, maior a responsabilidade de manter os cooperados entendendo o modelo de negócio. A lógica apresentada foi direta: crescimento gera escala, escala aumenta complexidade, complexidade pode afastar o associado, e é a educação que reconecta e reengaja.
O programa Crescer, segundo ele, se estrutura numa trilha de 4 passos: sentir que pertence, conhecer o modelo, participar de fato e gerar valor coletivo, com conteúdo básico, avançado e complementar que cada cooperativa pode adaptar à sua realidade. O impacto da iniciativa é comprovado pelos números alcançados. Rogério relatou que associados formados pelo programa aumentam indicadores como ISA e principalidade em até 50% depois de 18 meses, com mais de 1 milhão de associados já formados.
"A educação cooperativista é fundamental para acompanhar o crescimento, aproximar os associados e fortalecer o sentimento de pertencimento. O crescimento constrói escala, a educação constrói pertencimento, e o pertencimento sustenta uma cooperativa”, concluiu.
Novas gerações
A formação de crianças e jovens para os valores e princípios do cooperativismo foi o foco da apresentação de Fernanda Paiva, que compartilhou a experiência do Programa Cooperativa Mirim. Ao destacar os desafios da educação diante das transformações da sociedade, ela defendeu novas formas de aprendizagem capazes de dialogar com as habilidades exigidas pelo futuro. “Temos uma escola do século XIX, um professor do século XX e um aluno do século XXI”, provocou.
O programa leva a vivência cooperativista a crianças e adolescentes de 8 a 17 anos em escolas e instituições sociais, com aprendizado prático sobre cooperação, participação e organização coletiva. Atualmente, são 170 cooperativas mirins e mais de 5,5 mil associados, distribuídos por 13 estados e presentes também em comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas, além de uma Apae.
Os resultados refletem o alcance da iniciativa. Segundo Fernanda, 86% dos participantes afirmam ter aprendido como funciona uma cooperativa e 77% se sentem mais motivados a enfrentar desafios. A apresentação foi encerrada com uma reflexão de Paulo Freire sobre o papel da educação: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria construção.”
A relação entre educação e cultura foi discutida por Helena Soares e Tania Savaget. Elas apresentaram os resultados da Pesquisa Nacional de Cultura Cooperativista, que contou com 46 entrevistas em profundidade realizadas com representantes de 37 cooperativas de todas as unidades federativas do país, além de 9.761 respondentes na etapa quantitativa. O estudo identificou uma cultura marcada por confiança, lealdade e propósito, mas também desafios para ampliar sua presença. “O desafio agora é transformar essa força em participação, renovação e pertencimento”, destacou Helena.
Vivência
Ao debater o 5º princípio cooperativista, Itamar Vodzicki apresentou iniciativas educacionais da Cresol, enquanto Thaís Cristina mostrou a experiência dos Núcleos Cooper, voltados à participação e à formação de lideranças. “Numa cooperativa com milhares de cooperados, a participação não sobrevive por inércia, ela precisa de espaço, de escuta e de gente disposta a cultivá-la todos os dias”, afirmou Thaís.
Ricardo Leite abordou o papel do educador cooperativista e a importância de transformar conhecimento em vivência. “Ensinar o cooperativismo é essencial. O nosso desafio é fazer com que ele seja experimentado efetivamente cada vez mais”.
Ricardo Cappra encerrou a trilha com uma apresentação sobre os impactos do uso de dados e da inteligência artificial na cultura das organizações. Para ele, a adaptação tecnológica exige também mudanças de comportamento, ambiente e formas de decisão, sem perder de vista os valores que orientam as cooperativas. “Cultura não se implementa. Comportamento, ambiente e recursos precisam ser reconfigurados e os valores precisam orientar a transformação. Assim, a cultura se adapta”, defendeu.
